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O mundo real (inacabado ainda)

by em quinta-feira 31, julho 2008

Gil Pena

Haverá aqueles que lêem os meus escritos e imaginam que sou uma pessoa fora da realidade, que não vejo a deficiência ali tão evidente. Dirão que minhas palavras não correspondem ao mundo que a maioria das pessoas percebe. E se não compartilho de uma visão de mundo tão evidente na concepção da maioria, não estaria mesmo fugindo da realidade?

Há muita filosofia discutindo o que é realidade e verdade, mas não precisamos de filosofia, quando a realidade é verdadeira e a verdade, real.

A dificuldade em lidar com esses aspectos reais e verdadeiros do mundo é ainda mais aguda quando não me é possível convencer os outros, por meio da argumentação, de que a visão que ofereço é inteiramente construída na realidade e tem valor de verdade. Na maioria das vezes, acredito, não consigo sequer balançar essa convicção mais prevalente, tão avassaladoramente real e verdadeira do mundo. Como contradizer a experiência vivida pelas pessoas? A evidência tão real e concreta de que a deficiência existe e se manifesta? Como ouso eu dizer o contrário da experiência das pessoas?

Não é possível negar a experiência, a percepção da dificuldade, a vivência dos múltiplos obstáculos que se enfrentam todos os dias. E não é essa a realidade, a verdade crua dos fatos? Então, estou mesmo equivocado, me forçarão a admitir, incapaz que sou de dar valor a experiência dos experientes e ao conhecimento dos especialistas.

Soam irreais os argumentos que ofereço, porque contradizem os fatos que me apresentam. É preciso admitir a força dos fatos. A verdade não pode contradizer a experiência. A visão prevalente se sustenta nos fatos, na realidade presente e na experiência passada. Aquele que não se atém aos fatos, à experiência, é um sonhador, está fora da realidade.

Falemos da realidade: antes de iniciar esse texto, havia uma tela em branco, um arquivo vazio. Era essa a realidade, o fato. Agora estou no meio do texto, a realidade modificou-se. Mas o texto está ainda sendo construído, está em processo, não está acabado, não está escrito. Há um pedaço dele que o futuro reserva, um pedaço ainda fora da realidade palpável, mas que está no porvir. Se eu parar aqui, o texto ficará incompleto, eu devo continuar, para que fique acabado. Coloco-me um pouco a frente da realidade, um pouco no futuro, na perspectiva de ver o texto concluído. Depois que estiver pronto, parecerá que nasceu concluído, será dado como um fato estático, mas enquanto construo, é dinâmico.

A percepção de um mundo dinâmico, de uma perspectiva de futuro próximo, é o que dá a impressão de me soltar dos fatos, de me descolar da realidade, e me oferece a possibilidade de produzir novas experiências. Simples como o texto que escrevo. A sensação boa de vencer a realidade anterior, um arquivo vazio, um espaço ocioso do disco rígido. Movemo-nos no mundo, porque temos essa perspectiva de futuro, essa noção de constante transformação, mas freqüentemente nos prendemos a uma realidade que nos parece imutável, porque está comprovada na experiência ou nos é dita pelos especialistas. O imutável pertence ao passado, pelo fato simples e corriqueiro de que não intervimos no passado. É no porvir que construímos a nossa intervenção do mundo.

O texto acaba aqui. O mundo, esse permanece inacabado.

Gil Pena é médico patologista e pai. Dedica-se a estudos na área da educação, dentro da linha do Projeto Roma.

De → movimento

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