Pular para o conteúdo

Soltar papagaios

by em terça-feira 8, dezembro 2009

A investigação em que me vejo inserido agora, sobre as relações do aprendizado espontâneo e o aprendizado científico, e a formação de conceitos, está longe de estar concluída. Vigotsky andou tratando do tema, ponto de partida desse sobrevoo, no livro Pensamento e Linguagem, publicado postumamente, em dois capítulos: o capítulo 5 “Um estudo experimental sobre a formação de conceitos” e o capítulo 6 “O desenvolvimento dos conceitos científicos na infância”.

Estas questões estão profundamente intricadas com uma investigação mais ampla, dispersa, que mineiramente vou comendo pelas beiradas, sobre o desenvolvimento de uma consciência crítica, por meio de uma educação que alimente reflexões sobre nós mesmos e sobre o mundo.

Tratar de um tema que não domino é, por assim dizer, cair e recair do cavalo. Não sabendo do que escrevo, posso escrever do que não sei? Não sei, mas escrevo, como se escrevendo pudesse construir o sentido que me guie, ainda que à perdição, e nesse descaminho, posso achar leitores ou leitoras, que talvez me desencontrem em um caminho. São palavras de um jogo, jogo de palavras.

Palavras são signos, símbolos, representam, fazem referência. Escrevo nas palavras, o que quero dizer, mas não sabendo dizer, desenho com palavras, um jogo confuso, quebra-cabeças mal resolvido, as palavras soltas, viram brinquedos, encadeadas num ritmo, num sentido, povoam um plano tela antes vazio, mas não dizem nada, se não fazem sentido, na corrente de elos desligados, que misturo, rearranjo, re-enovelo, embolo, não desembolo.

Jogo de palavras, brincadeira de soltar papagaio, linha 10, que tirada do carretel, enrolada na lata, deixa ir ao vento, ligado a nós, o conjunto de taquara e papel, dá-se a linha à força do vento, recolhe-se à calmaria. Deitada no chão, emaranhado de uma linha só, uma meada, embolou, melhor arrebentar, tira essa parte, dá um nó aí, emenda.

A paciência de desembolar, quem tem? Mas soltar papagaio das idéias, é aprumar em um momento, muitas linhas, muitos ventos, formas e cores diferentes, deixar ir papagaio, solto, sem linha, desterritorializado, nascido no plano antes povoado de idéias, agora idéias soltas, indo a outros planos, outros tempos, outras cabeças.

Jogo de palavras, brincar de papagaio. Papagaio vermelho. Os índios bororós, no Brasil, são papagaios vermelhos. Primitivo conceito, pseudoconceito, formam complexo, diz Vigotsky, entendem-se eles próprios como papagaios vermelhos.

Verdadeiro conceito, penso, índios bororós e papagaios vermelhos, conceito autopoético da existência, mais além das penas vermelhas, com que se enfeitam, mais além da nossa compreensão primitiva de humanos civilizados, que nos agregamos em complexos de primatas bípedes, pseudopensantes, sem nos tocarmos que somos papagaios vermelhos, não os de papel e taquara, faço referência aos emplumados, autopoéticos, que se soltam ao vento, e nós sendo eles, voamos, desterritorializamos, não temos linha, pensamento voante, livre.

A contraposição que se faz, dois modos de pensar, um da vida, espontâneo, um da escola, científico, um que indo de baixo para cima, cientifica-se, outro indo de cima para baixo, trazemos à vida cotidiana. Sempre há que ir e vir. Soltar papagaio, recolher. Deixar voar, pousar.

Mas conceito, conceito mesmo, há muito pouco. O modelo é pensar por conceitos, mas modelamos complexos, e complexos assumem ares de conceitos e pretendemos dominar conhecimentos, agregando atributos, de domínios distintos, confundindo as linhas, as bolas, ora que me embola, pseudo conceito, aqui não te cabe, elemento, tira o elemento, não invalida modelo, pseudopensar, esse por pseudoconceito. Aqui não te cabe, elemento, não te cabendo, caberia algum? Pensando errado, formando complexo. Forma um conceito, é o que te falta para entender, formando complexo, só arranja, não entende, nem desembola. corta o embolado, dá um nó, emenda.

Melhor emendar que desembolar, melhor linear, trazer o papagaio preso a linha, ser civilizado, pseudopensante, complexante: encontro novo atributo, agrego mais conhecimento ao complexo, nada sei sobre, não formo conceito, mas agrego, agrupo, referencio. E atributo diferente, desagrego, desagrupo. Brinco de formar complexos. Famílias, estadios, inventários, coleções, catálogos. Aprendizado científico, sistemático, na formação de pseudoconceitos, presos aos atributos, à experiência, empíricos, demonstráveis. Conceitos, livres no plano do pensamento, nos dão asas, como aos papagaios vermelhos, os emplumados, que somos, no conceito, não no complexo – forma primitiva de o homem civilizado se pensar.

Melhor agora que embolei as idéias, confusas linhas traçadas, num plano, numa tela, antes vazia. Ordenadas, se lidas, talvez não compreendam, pois não se revestem do sentido, da esquerda a direita, de cima para baixo. É preciso soltar as palavras da tela, recolher e dar linha, no vento e na calmaria, outras vezes catar-lhe sentido como voassem em revoada, bando de maritacas verdes, não mais papagaios vermelhos, em algazarra, na alegria simples, de não entender, de não se prender a um atributo, de não querer classificar, sobrevoo de palavras, que não fazendo sentido, nos oferecem um sentido diferente. Linguagear, no linguajar. Verbo voar nas palavras. Palavras, nossas asas, nós, papagaios vermelhos, conceito espontâneo de índio bororó.

Um Comentário

Trackbacks & Pingbacks

  1. Novidades do dia | Inclusive

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.