Palavras Bacanas
Tradução e paráfrases de uma seção do artigo “Reassigning Meaning” [cf. LJDavis (org). Disability Studies Reader, 2006] de Simi Linton, da Universidade de Columbia, por Ubiratan Vieira
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Termos como “pessoas com necessidades especiais”, “deficiente eficiente”, “excepcionais”, e “pessoas/crianças especiais”, vêm a tona em diferentes momentos e lugares. São raramente usados por deficientes politizados ou acadêmicos (exceto com uma ironia palpável). Entretanto, podem ser considerados tentativas bem-intencionadas de valorizar as pessoas com deficiência. Transmitem a mentalidade da responsabilidade social e da boa vontade de fazer o bem, endêmicos às agências paternalistas que controlam muitas vidas de pessoas com deficiência. “Pessoas com necessidades especiais” é o único termo que parece que pegou. Pessoas não deficientes o usam em conversas sobre pessoas com deficiência sem uma ponta de ansiedade, sugerindo que acreditam que seja um termo positivo. Esta designação não faz muito sentido para mim. Dizer que sou uma “pessoa com necessidades especiais” é afirmar que os obstáculos para minha participação são físicos, não sociais, e que a barreira é minha própria deficiência.
Os termos “deficiente eficiente” e “excepcionais” tiveram uma vida consideravelmente curta nas pratilheiras. O primeiro é usado para refutar estereótipos de incompetência. Entretanto, é um termo defensivo e reativo mais do que um termo que propõe mudanças. O segundo, “excepcionais”, foi usado como justificação psicopedagógica para o “fracasso escolar” e a segregação de crianças em salas e escolas, mas foi logo substituído para esta função pelo termo “especial”.
Uma série de profissões são construídas no entorno da palavra “especial”. Uma grande infra-estrutura resta na ideia de que “crianças especiais” e “educação especial” são ideias estruturantes, validadas e úteis. Entretanto, os dicionários (Aurélio e Michaelis) insistem que “especial” seja reservado para casos fora do comum, excelentes, notáveis, superiores e que se aplique exclusivamente a uma pessoa ou coisa ou uma categoria particular de coisas. A experiência nos ensina que “especial” significa algo diferente quando aplicada à educação ou a crianças. A designação de crianças deficientes e a educação como “especial” pode ser entendida somente como um eufemismo, obscurecendo a realidade de que nem as crianças, nem sua educação são consideradas desejáveis, nem concebidas como “excelentes, notáveis, superiores”.
Rotular a educação e seus destinatários de especiais pode ter sido uma tentativa deliberada para conferir legitimidade a esta prática educacional e para dar suporte a grupos excluídos. Mas também é importante considerar o sentimento inconsciente que tal estratégia pode mascarar. Tenho o sentimento de que a população em geral lida com pessoas com deficiência com grande ambivalência. Sentimentos de antipatia e desdém sempre entram em competição com sentimentos de empatia, culpa e identificação. O termo “especial” pode ser uma evidência não de uma manobra deliberada, mas de uma “formação reativa” coletiva, termo de Freud, para o mecanismo de defesa inconsciente no qual um indivíduo adota atitudes e comportamentos que são o oposto de seus próprios sentimentos verdadeiros, de modo a proteger o ego da ansiedade sentida por experimentar esses sentimentos.
